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A trajetória de um homem negro que enfrentou o sistema escravista no século XIX e fez da própria vida uma história de resistência
Quando contamos a história do Brasil, por muito tempo fomos ensinados a olhar para a população negra apenas pela perspectiva da escravização: como mão de obra, como propriedade, como vítima de um sistema que lhe negava humanidade.
Mas existe outra maneira de contar essa história.
É preciso olhar pelo lado negro.
Olhar para aqueles que resistiram, que criaram estratégias de sobrevivência, que construíram redes de solidariedade, que desafiaram o poder senhorial, que fugiram, que recorreram à Justiça e que, mesmo diante de uma estrutura criada para controlar seus corpos e suas vidas, encontraram caminhos para afirmar a própria existência.
É nesse lugar que encontramos Joaquim Martins, conhecido como Joaquim Músico.
Sua trajetória, registrada em documentos do século XIX e analisada no estudo histórico sobre o Barão da Palmeira, revela muito mais do que a vida de um músico submetido à escravização. Revela a história de um homem que possuía conhecimentos, dominava diferentes instrumentos, sabia ler e escrever, conhecia o território, estabelecia relações e buscava, de diferentes maneiras, conquistar aquilo que o sistema tentava lhe negar: a liberdade.
O músico
Joaquim cresceu na Fazenda da Cachoeirinha, em Arrozal. Aos 20 anos, foi para a Fazenda do Pinheiro, em Sant’Anna do Pirahy.
Ali, sua habilidade musical ganhou destaque.
Joaquim dominava instrumentos de sopro e tinha especial habilidade com a clarineta. Também sabia alfaiataria, além de ler e escrever — conhecimentos que, em uma sociedade profundamente desigual, representavam importantes instrumentos de autonomia.
Em 1856, aos 22 anos, tornou-se mestre da banda da Fazenda do Pinheiro.
A música lhe conferia uma posição diferenciada dentro daquela estrutura. Ser músico significava possuir conhecimento, circular por determinados espaços e estabelecer relações que ultrapassavam os limites do trabalho braçal.
Mas essa condição não significava liberdade.
Joaquim continuava submetido à escravização.
E é justamente aí que sua história começa a revelar uma dimensão ainda mais profunda.
Uma acusação cercada de dúvidas
Pouco depois de assumir a posição de mestre da banda, Joaquim foi acusado de envolvimento na morte de Albina, uma mulher negra também submetida à escravização.
Albina foi morta dentro da senzala da Fazenda do Pinheiro, atingida por um disparo de arma de fogo.
Joaquim tornou-se suspeito.
Mas um elemento fundamental precisa ser destacado: as testemunhas ouvidas no processo, em sua maioria, não haviam presenciado o crime. Muitas afirmavam apenas ter ouvido que Joaquim era apontado como responsável.
Os músicos Valeriano e Benjamim, chamados a depor, disseram não saber quem havia matado Albina e negaram conhecer qualquer inimizade entre Joaquim e ela.
O processo revela, portanto, uma acusação cercada por dúvidas, relatos indiretos e lacunas.
Não cabe à história afirmar aquilo que os documentos não conseguem provar.
O que sabemos é que Joaquim foi levado à Justiça, enfrentou uma acusação grave e, em 22 de maio de 1857, foi absolvido pelo júri por maioria absoluta.
Mas aqui está uma das maiores contradições dessa história:
Joaquim foi absolvido pela Justiça e, ainda assim, continuou submetido à escravização.
Absolvido, mas ainda sem liberdade
A absolvição não significou liberdade.
Depois do julgamento, Joaquim retornou ao poder de seu senhor e foi transferido para a Fazenda Bonsucesso.
Sua condição mudou radicalmente.
O homem que havia sido mestre de uma banda passou a viver acorrentado e vigiado. Foi afastado da música, dos companheiros e dos espaços que antes ocupava.
Entre 1857 e 1876, permaneceu submetido a essa condição.
Mas as correntes não apagaram sua capacidade de reagir.
Joaquim fugiu.
E fugiu novamente.
Sua mobilidade pelo território não pode ser entendida simplesmente como uma fuga individual. O estudo histórico mostra que ele conhecia os caminhos, as propriedades e as relações existentes naquela região.
Joaquim sabia circular.
E essa capacidade de movimentação constituía, dentro das possibilidades daquele período, uma forma concreta de resistência.
A resistência também estava nas relações
Existe uma tendência de imaginar a resistência negra no século XIX apenas através das grandes fugas, revoltas e quilombos.
Mas a história de Joaquim nos ensina que a resistência também podia acontecer no cotidiano.
Estava na construção de relações.
Na circulação pelo território.
Na busca por proteção.
Na capacidade de negociar.
Na manutenção de vínculos.
Na recusa em aceitar passivamente aquilo que lhe era imposto.
Joaquim conhecia pessoas, propriedades e caminhos. Sua experiência como músico também lhe permitia estabelecer conexões em diferentes espaços.
O sistema escravista tentava controlar os corpos.
Joaquim demonstrava que nem sempre conseguia controlar completamente os caminhos percorridos por esses corpos.
A liberdade também foi buscada na Justiça
A história de Joaquim ganha ainda mais força depois da morte de seu antigo senhor, em 1879.
Em testamento, Joaquim foi incluído entre aqueles que receberiam a liberdade. Porém, essa liberdade vinha acompanhada de uma condição: deveria deixar a Província do Rio de Janeiro e seguir para outra região.
Mesmo assim, a execução dessa liberdade não ocorreu de maneira simples.
Em 9 de novembro de 1880, Joaquim Martins entrou com uma ação de liberdade em Piraí, reivindicando judicialmente um direito que, segundo ele, já havia sido estabelecido no testamento.
Esse momento é fundamental.
Joaquim não estava apenas fugindo.
Ele estava reivindicando sua liberdade perante a Justiça.
Era um homem submetido à escravização utilizando os instrumentos jurídicos disponíveis em seu tempo para contestar a continuidade daquela condição.
E isso precisa ser lembrado.
Porque a população negra não foi apenas objeto das leis do Império.
Também foi sujeito diante delas.
Negros e negras buscaram a Justiça, formularam argumentos, construíram alianças, apresentaram testemunhas, negociaram suas condições e lutaram juridicamente pela liberdade.
Joaquim fez parte dessa história.
Mesmo depois da liberdade, o controle permanecia
A trajetória de Joaquim mostra também que a liberdade jurídica não significava necessariamente uma ruptura imediata com as estruturas de poder.
Durante o processo, ele voltou a ser localizado e mantido sob controle.
Há registros de que foi encontrado acorrentado na Fazenda da Grama, enquanto afirmava ser homem livre e demonstrava medo de ser novamente castigado.
Seu caso provocou conflitos entre aqueles que defendiam sua condição de liberto e aqueles que ainda tentavam exercer controle sobre ele.
O episódio revela uma realidade cruel: mesmo quando a liberdade era reconhecida em documentos, o poder senhorial ainda tentava prolongar seus mecanismos de dominação.
Joaquim não desapareceu
Em 1884, Joaquim voltou a aparecer nos documentos.
Já identificado como Joaquim de Souza, conhecido como Joaquim Músico, tinha 49 anos e trabalhava no armazém da Fazenda Bella Vista.
O nome havia mudado.
A condição social também.
Mas uma coisa permanecia:
Joaquim Músico continuava sendo Joaquim Músico.
Sua identidade construída ao longo de décadas não havia desaparecido.
Ele havia sido músico, mestre de banda, trabalhador, homem perseguido, acusado, absolvido, acorrentado, fugitivo, requerente de uma ação de liberdade e, finalmente, um homem que conquistou sua liberdade.
O mais significativo é que Joaquim não seguiu exatamente o caminho que o testamento havia determinado.
Embora tivesse recebido recursos destinados à passagem para outra região, ele permaneceu na região de Sant’Anna do Pirahy e continuou trabalhando.
Não podemos saber exatamente todas as razões que o levaram a permanecer. Mas os documentos mostram que ele não simplesmente desapareceu da região depois de conquistar a liberdade.
Ele continuou vivendo e trabalhando naquele território.
O homem por trás dos documentos
Talvez uma das maiores contribuições dessa história seja nos obrigar a enxergar Joaquim para além dos documentos judiciais.
Por trás dos autos, das acusações, dos depoimentos e das ordens de prisão existia um homem.
Um homem que tocava clarineta.
Que sabia ler e escrever.
Que conhecia diferentes instrumentos.
Que sabia costurar.
Que conhecia caminhos.
Que construiu relações.
Que teve medo.
Que fugiu.
Que foi perseguido.
Que foi acorrentado.
Que voltou a fugir.
Que procurou a Justiça.
Que reivindicou sua liberdade.
Que negociou.
Que permaneceu.
Um homem que resistiu.
A história de Joaquim nos permite compreender que a população negra não estava simplesmente esperando que a liberdade chegasse.
Ela estava construindo caminhos para alcançá-la.
Pelo lado negro da história
Contar a história de Joaquim pelo lado negro não significa alterar os documentos ou transformar o passado em uma narrativa conveniente.
Significa fazer perguntas diferentes.
Quem era Joaquim?
O que ele sabia?
Quais relações construiu?
Como conseguiu circular?
Por que fugiu?
Como enfrentou o poder?
Por que precisou recorrer à Justiça?
Como conseguiu permanecer diante de tantas formas de violência?
E, principalmente:
o que a trajetória de Joaquim nos revela sobre a capacidade de resistência da população negra no século XIX?
Essas perguntas deslocam o olhar.
Joaquim deixa de aparecer apenas como alguém que sofreu a escravização e passa a ser compreendido como sujeito histórico.
O sistema tentou transformá-lo em propriedade.
Mas Joaquim construiu uma história própria.
O sistema tentou controlar seus passos.
Mas ele conhecia os caminhos.
O sistema tentou retirar sua posição de músico.
Mas não conseguiu apagar sua identidade.
O sistema tentou prolongar sua submissão.
Mas Joaquim procurou a Justiça.
O sistema tentou determinar para onde ele deveria ir.
E, quando recebeu a liberdade, permaneceu onde havia construído sua vida.
Uma história de Piraí que precisa ser contada
A história de Joaquim Músico pertence também à história de Piraí.
Ela nos lembra que o território que hoje conhecemos foi construído por milhares de pessoas negras, muitas delas submetidas à violência do sistema escravista, mas também protagonistas de suas próprias trajetórias.
Piraí não pode contar sua história apenas pelos nomes dos grandes proprietários, dos barões e dos homens que aparecem nos documentos oficiais.
É preciso contar também a história daqueles que trabalharam, criaram, tocaram música, amaram, fugiram, resistiram, negociaram e lutaram pela liberdade.
É preciso recuperar os nomes.
É preciso recuperar as vozes.
É preciso recuperar as trajetórias.
Porque uma cidade também é feita daqueles que durante muito tempo foram colocados à margem de sua própria história.
Joaquim Músico nos mostra que essa história estava ali.
Nos documentos.
Nas fazendas.
Nos caminhos.
Nas relações.
Na música.
Na resistência.
Joaquim Músico, símbolo de resistência
A trajetória de Joaquim não deve ser romantizada.
Ele viveu sob um dos sistemas mais violentos da história brasileira.
Foi submetido à escravização, sofreu perseguição, perdeu privilégios, foi acorrentado, fugiu, foi capturado e precisou lutar juridicamente para fazer valer sua liberdade.
Mas justamente por isso sua trajetória precisa ser lembrada.
Porque resistência não significa ausência de sofrimento.
Resistência significa continuar buscando caminhos mesmo quando o sistema foi construído para impedir que esses caminhos existissem.
Joaquim Músico fez isso.
Sua resistência esteve na fuga.
Esteve na mobilidade.
Esteve nas relações que construiu.
Esteve na capacidade de negociar.
Esteve no recurso à Justiça.
Esteve na insistência em afirmar sua condição de homem livre.
E esteve, sobretudo, na capacidade de permanecer sujeito de sua própria história.
O estudo histórico de sua trajetória demonstra que Joaquim foi profundamente marcado pela violência do sistema escravista, mas também evidencia sua mobilidade, seus vínculos, suas estratégias e sua capacidade de negociação, elementos que revelam um homem que não pode ser reduzido à condição que o sistema tentou lhe impor.
Para que Joaquim não seja esquecido
Existiram muitos Joaquins no Brasil do século XIX.
Homens e mulheres negros cujos nomes foram apagados ou esquecidos.
Pessoas que trabalharam, criaram famílias, construíram comunidades, preservaram conhecimentos, produziram cultura e encontraram diferentes formas de enfrentar a escravização.
Alguns fugiram.
Outros negociaram.
Alguns recorreram à Justiça.
Outros resistiram no cotidiano.
Muitos jamais tiveram seus nomes registrados.
Por isso, contar a história de Joaquim Músico é também assumir uma responsabilidade com o presente.
Quando recuperamos sua trajetória, não estamos apenas falando sobre o século XIX.
Estamos dizendo às novas gerações que a população negra sempre foi protagonista da história de Piraí e do Brasil.
Joaquim não deve ser lembrado somente pelo processo criminal que enfrentou.
Nem apenas pelas correntes que carregou.
Deve ser lembrado pela sua inteligência, pela sua música, pela sua capacidade de construir relações, pela coragem de fugir, pela insistência em reivindicar a liberdade e pela capacidade de sobreviver a um sistema que tentou controlar todos os aspectos de sua existência.
Sua história nos ensina que liberdade não é apenas uma palavra escrita em um documento.
Para Joaquim, liberdade foi uma luta.
Foi caminhada.
Foi fuga.
Foi resistência.
Foi Justiça.
Foi negociação.
Foi sobrevivência.
E, acima de tudo, foi a afirmação de que um homem submetido à escravização continuava sendo dono de seus sonhos, de sua inteligência, de sua memória e de sua vontade de viver livre.
Hoje, quando olhamos para a história de Piraí, precisamos olhar também para Joaquim Músico.
Porque a história de nossa cidade não foi construída apenas pelos que tiveram poder.
Foi construída também por aqueles que, mesmo privados de liberdade, nunca deixaram de lutar para conquistá-la.
E é por esse lado, pelo lado negro da nossa história, que Joaquim Martins precisa ser lembrado.
Não como um homem definido pela escravização.
Mas como Joaquim Músico: um homem negro, músico, trabalhador, estrategista e resistente, que enfrentou o sistema e fez da busca pela liberdade uma das marcas de sua trajetória.
Essa é a história que precisa ser contada.
Essa é a história que precisa permanecer viva.
NA LINHA DE FRENTE COM BARÃO
Por Willians Falcão Manoel
Fontes: Arquivo Municipal de Piraí.
A Folha do Café não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nessa coluna.
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