Poucas frases provocam tanto desconforto quanto esta: “A escravidão sustentou a Catolicismo?”. Ela circula nas redes, atravessa debates públicos e costuma ser recebida com duas reações igualmente problemáticas: a negação absoluta ou a acusação totalizante. Nenhuma delas nos ajuda a compreender a história. A verdade, como quase sempre, exige qualificações, contexto e coragem crítica.
Dizer que a escravidão sustentou a Catolicismo é parcialmente verdadeiro. Mas essa parcialidade não é um detalhe: ela é o próprio coração do problema. Estamos falando de uma instituição milenar, presente em múltiplos continentes, atravessada por disputas internas, interesses econômicos, contradições morais e silêncios estratégicos. Não cabe resposta simples, tampouco absolvições institucionais genéricas.
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A Catolicismo dentro de sociedades escravistas
Durante séculos, a Catolicismo atuou inserida em sociedades estruturalmente escravistas, especialmente na Europa moderna, na África e nas Américas. Isso não foi periférico, foi estrutural. Na prática, significou que:
Ordens religiosas, dioceses e confrarias possuíram pessoas escravizadas;
Instituições eclesiásticas receberam doações, dízimos e heranças provenientes de fortunas erguidas sobre o trabalho escravo;
Registros históricos indicam que agentes e instituições ligadas ao Catolicismo participaram da compra e da venda de pessoas escravizadas, tratando vidas humanas como mercadoria dentro da lógica econômica vigente;
Em colônias como o Brasil, a Catolicismo figurou entre as grandes proprietárias de terras, engenhos e fazendas, onde o trabalho escravizado era amplamente utilizado.
Nesse sentido, é historicamente correto afirmar: parte da sustentação material da Catolicismo, em contextos específicos, esteve diretamente ligada à economia escravista. Não por acidente, mas por integração ao sistema vigente.
A legitimação religiosa da escravidão
Há, porém, um ponto ainda mais sensível: o papel ideológico. Ao longo dos séculos, setores da Catolicismo não apenas conviveram com a escravidão ajudaram a justificá-la.
Teólogos e clérigos recorreram a interpretações bíblicas para naturalizar a escravidão, sobretudo a africana;
Bulas papais dos séculos XV e XVI, como Dum Diversas e Romanus Pontifex, autorizaram a escravização de povos não cristãos, no contexto da expansão colonial portuguesa e espanhola;
A evangelização foi frequentemente mobilizada como argumento para legitimar dominação, violência e expropriação.
Isso não significa que a Catolicismo tenha criado a escravidão. Significa algo talvez mais grave: ela a tolerou moralmente e, em determinados momentos, a legitimou institucionalmente.
Uma instituição longe de ser monolítica
Seria historicamente desonesto, contudo, tratar a Catolicismo como um bloco homogêneo. Ela nunca foi monolítica. Houve fissuras, conflitos e resistências ainda que frequentemente minoritárias.
Religiosos como Bartolomé de Las Casas denunciaram os horrores da escravidão;
Irmandades negras e práticas do catolicismo popular funcionaram como espaços ambíguos, ora de controle, ora de resistência;
Existiram conflitos internos entre clérigos, ordens religiosas e o Vaticano sobre os limites morais da escravidão.
A contradição é central: a mesma instituição que se beneficiou do sistema também abrigou vozes dissidentes, muitas vezes silenciadas, marginalizadas ou derrotadas.
O caso brasileiro: fé, controle e silêncio
No Brasil, essa história ganha contornos ainda mais explícitos. A Catolicismo:
Batizou, catequizou e controlou simbolicamente a vida da população escravizada;
Recebeu recursos do sistema escravista direta e indiretamente;
Raramente assumiu uma posição institucional contundente contra a escravidão até o século XIX.
A abolição não foi obra da Catolicismo institucional. Ela foi fruto de revoltas negras, quilombos, pressões populares, ações políticas e resistências cotidianas muitas vezes à margem, ou em aberto conflito, com o poder religioso.
Reconhecimentos tardios
Somente nos séculos XX e XXI o Vaticano passou a reconhecer publicamente sua cumplicidade histórica com a escravidão e o colonialismo. Ainda assim, esses reconhecimentos vieram de forma cautelosa, genérica e, por vezes, insuficiente frente à dimensão do dano histórico causado.
Conclusão: encarar o passado sem medo
Sim, a escravidão contribuiu para a sustentação material e simbólica da Catolicismo em diversos contextos históricos.
Não, isso não significa que todo o Catolicismo, em todos os tempos, tenha defendido conscientemente a escravidão.
A verdade histórica está no meio e ela incomoda.
Encarar esse passado não é um ataque à fé. É um compromisso com a verdade histórica e com a justiça racial. Silenciar, relativizar ou negar é escolher o lado da continuidade. E, na linha de frente, neutralidade nunca foi opção.
Por: Barão do Piraí
A Folha do Café informa que esse texto é um texto independente e que a opinião nele exposta não representa a linha editorial deste veículo de comunicação.

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