Neste artigo, não quero lançar luz sobre o possível resultado das eleições do próximo dia 25 de outubro. Quero, ao contrário, falar daquilo que já passou. Com a derrota de Lula para Flávio Bolsonaro no primeiro turno uma hipótese que, até sessenta dias atrás, eu consideraria improvável, o Partido dos Trabalhadores assistiu ao fim de uma era. E faço questão de deixar claro: mesmo que Lula vença o segundo turno, o PT jamais será o mesmo.

E não digo isso por causa de uma derrota. Derrota faz parte do jogo político. O próprio Lula disputou seis eleições antes desta e venceu três. Sinceramente, esse é o fator que menos influencia o meu raciocínio. O que me chama a atenção é outra coisa, mais profunda e a meu ver, mais reveladora.

Na minha leitura, Lula não teve a capacidade de se comunicar bem ao longo dos últimos anos. As trocas de ministros da área da comunicação pesaram. A falta de um olhar atento para os veículos do interior do país (jornais, rádios, TVs e portais de notícias) cobrou seu preço. E a indiferença com as redes sociais, que hoje são mídias de apoio fundamentais, completou um quadro que, acredito, fez e ainda fará o maior líder político da história recente do Brasil pagar caro. Pagar caro, inclusive, com a possibilidade de uma derrota constrangedora para um adversário que jamais exerceu um cargo executivo.

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Penso que o atual governo se esqueceu de uma verdade simples: as decisões são tomadas em Brasília, mas a vida acontece nas cidades e, principalmente, nas cidades do interior do Brasil. Em governos anteriores do próprio Partido dos Trabalhadores, essa lógica era outra, era justamente o contrário. As pessoas sabiam o que o governo fazia e o que entregava. Havia uma conexão direta entre a ação pública e a percepção do cidadão comum.

Defendo que a comunicação de um governo não pode se resumir a comprar mídia nos grandes veículos e ponto final. É preciso olhar para os meios e para os profissionais que realmente falam com o povo. É preciso enxergar e investir nos veículos que mostram o buraco na rua, que dão voz à reclamação sobre o atraso do ônibus, que denunciam a falta de remédio no postinho de saúde. É nesse território, o do cotidiano, que a política se torna concreta para as pessoas — e foi exatamente aí que, na minha avaliação, faltou atenção.

Faltou humildade. Faltou gente com estratégia. E, por mais que o resultado final da eleição ainda esteja em aberto, o fato é que o PT como nós o conhecemos hoje acabou no último dia 4 de outubro. A ausência de novas lideranças, ou mesmo a dificuldade de abrir espaço para que elas surjam, também pesou nesse cenário mas isso é assunto para uma próxima coluna.

Encerro reafirmando o que me parece ser o ponto central desta reflexão: o maior desafio de uma força política não é vencer ou perder uma eleição, e sim manter viva a sua capacidade de ouvir e de se conectar com quem está longe dos centros de poder. Quando essa conexão se perde, nem mesmo a maior das lideranças consegue segurar o tempo. E foi isso, acredito, que vimos acontecer.

Por Charles Barizon

A Folha do Café não se responsabiliza sobre as opiniões emitidas nesse artigo