Comecei este ano falando sobre recomeçar. Agora, me pego diante do convite de falar sobre o fim. E talvez isso não seja uma contradição, mas uma coerência. A vida, afinal, é cíclica. Não se move em linha reta. Ela gira, cruza, se sobrepõe, retorna, se transforma.

Estamos o tempo todo imersos em ciclos. Alguns conscientes, outros nem tanto. Ciclos que se encerram enquanto outros se iniciam. Ciclos que se tocam, se atravessam, se tangenciam. Às vezes, só percebemos o fim quando já estamos dentro de outro começo. E isso não é falha. Isso é vida.

Essa compreensão dialoga bastante com a ideia de tempo espiral, proposta por Leda Maria Martins. Um tempo que não separa passado, presente e futuro, mas os entende como camadas vivas que se alimentam mutuamente. Um tempo que valoriza a memória, a ancestralidade, o corpo, a experiência e a transformação contínua. Nada se perde. Tudo se reinscreve. O que fomos segue conosco, ressignificado, pulsando no agora e apontando para o porvir. Somos mosaicos vivos, né?

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Fechar ciclos, nesse sentido, não é apagar histórias. É acolhê-las. É um gesto de empatia consigo mesmo. É reconhecer que certos afetos, escolhas, vínculos e versões de nós já cumpriram sua função. E que insistir neles, muitas vezes, é permanecer por medo, não por propósito.

Ao longo deste ano, escrevi sobre autenticidade, afeto, pertencimento, ética, empatia e propósito. Não por acaso, são essas mesmas palavras que me ajudam a pensar o encerramento. Ser autêntico é admitir quando algo já não faz mais sentido. Afeto é respeitar os tempos internos. Pertencimento é saber quando um lugar já não nos abriga como antes. Ética é não violentar a própria história. Empatia é cuidar das próprias dores com gentileza. Propósito é revisar rotas sem culpa.

Encerrar ciclos é também um processo de cura e reinvenção. Mas ele exige mergulho. Um mergulho que não é para se afogar em ansiedades, traumas, mágoas ou dores, e sim para conhecer, abraçar, cuidar e então emergir. Emergir com coragem, força, determinação, mas buscar, sempre que possível, com leveza.

Talvez por isso a música “Tente Outra Vez”, de Raul Seixas, siga sendo um mantra para mim:

“Há uma voz que canta,
há uma voz que dança,
uma voz que gira bailando no ar.”

Essa estrofe fala de movimento. De um chamado interno que não nos deixa paralisar. A voz que canta e dança é a vida pulsando, mesmo quando tudo parece pesado. A voz que gira nos lembra que viver é deslocamento, é travessia, é risco. Quem para por medo perde a chance de se reinventar. A vida não pede rigidez; ela pede escuta. E, sobretudo, pede que nos tiremos para dançar, mesmo quando o chão ainda não está totalmente firme.

Raul segue dizendo:

“Basta ser sincero e desejar profundo.”

Querer é essencial. Mas querer exige clareza. Saber o que se quer nasce do autoconhecimento, e esse caminho nem sempre é fácil, nem rápido, nem confortável. Muitas vezes é doloroso. Mas é revelador. E necessário.

Como cantam Roberto e Erasmo, “é preciso saber viver”. E saber viver, hoje, é um desafio enorme. Vivemos imersos no imediatismo, na comparação constante, na ilusão de perfeição filtrada. Talvez fechar ciclos também seja aprender a pegar mais leve consigo, diminuir a autocobrança, silenciar um pouco os ruídos externos, sair do excesso de virtualidade e reaprender a ser real. Saber viver é, muitas vezes, reaprender.

E Raul arremata:

“Não diga que a vitória está perdida,
se é de batalhas que se vive a vida.”

A vida não é ausência de conflito; é travessia. O mais importante, creio eu, é acreditar que é possível seguir adiante. Acreditar em si mesmo, ainda que cansado, com medo, sem todas as respostas.

Se 2025 se anuncia como um ano de encerramentos, talvez o convite não seja o do fim como ruptura, mas o do fim como passagem. Como no tempo espiral: nada termina por completo, tudo se transforma.

Que possamos fechar ciclos com autenticidade, afeto e ética. Que possamos nos tratar com empatia. E que, ao revisitar nossos propósitos, tenhamos coragem de criar novos, mais alinhados com quem somos hoje.

Porque, no fundo, talvez o fim nunca seja o fim. Talvez seja só a vida pedindo mais uma dança.