Quando se fala na história de Piraí, quase sempre o café aparece primeiro.

Mas existe uma história muito mais antiga escondida nas matas, nos rios e nos documentos coloniais.

Em 1691, Piraí já era território de resistência africana.

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Não estamos falando de uma tradição oral sem data, de uma hipótese distante ou de uma reconstrução imaginada. Estamos diante de um registro documental preservado no Arquivo Nacional e estudado pelo projeto Impressões Rebeldes, da Universidade Federal Fluminense.

Nas cabeceiras do Rio Guandu, no território correspondente ao atual município de Piraí, existia um mocambo com “grande quantidade de gente”.

A notícia chegou às autoridades coloniais em maio de 1691.

E o que ela revela é extraordinário.

ANTES DO CAFÉ, JÁ HAVIA RESISTÊNCIA AFRICANA

É preciso colocar Piraí no seu devido lugar no tempo.

O grande ciclo cafeeiro que transformaria o Vale do Paraíba aconteceria somente décadas depois. A paisagem econômica que hoje associamos ao Vale do Café ainda não havia sido construída.

Mas a presença africana já estava registrada.

E não apenas como força de trabalho submetida à escravização.

Como resistência.

Africanos submetidos à escravização fugiram das fazendas, alcançaram as matas e construíram uma comunidade nas proximidades das nascentes do Rio Guandu.

A documentação colonial chamou aquele agrupamento de mocambo.

O projeto Impressões Rebeldes identifica o episódio como Quilombo do Rio Guandu, em Piraí, com registro em 1691.

É uma das páginas mais antigas e contundentes da história africana e negra do território.

“GRANDE QUANTIDADE DE GENTE” UM REGISTRO SOBRE AFRICANOS

Há uma expressão no documento de 1691 que merece atenção:

> “um mocambo de negros fugidos com grande quantidade de gente nas cabeceiras [...] do Rio Guandú”

A linguagem pertence ao documento colonial de seu tempo. Hoje, para compreender essa história, podemos identificar esses sujeitos dentro do contexto da presença africana submetida à escravização.

Não se tratava, segundo o documento, de uma fuga individual.

Havia uma comunidade numerosa de africanos.

Havia ocupação do território.

Havia produção.

Havia circulação.

Havia relações sociais.

E havia, sobretudo, uma vida que escapava ao controle direto dos proprietários.

O próprio registro colonial afirma que os moradores daquele mocambo realizavam incursões pelas fazendas, roubavam e levavam outros escravizados.

Essa descrição precisa ser lida criticamente, porque vem da perspectiva das autoridades coloniais, que classificavam essas ações segundo a lógica jurídica e política da sociedade escravista.

Mas, por trás da linguagem administrativa, existe uma informação incontornável:

uma comunidade africana existia nas cabeceiras do Guandu e era suficientemente numerosa para provocar preocupação nas autoridades.

O RIO GUANDU COMO TERRITÓRIO DE RESISTÊNCIA AFRICANA

O rio não era apenas parte da paisagem.

Em uma sociedade em que caminhos, matas e rios eram fundamentais para circulação e sobrevivência, áreas de difícil acesso poderiam oferecer possibilidades de fuga e reorganização da vida africana.

O Quilombo do Rio Guandu estava situado nas cabeceiras do rio.

E isso permite enxergar Piraí para além da história econômica posteriormente construída pelo café.

Aquelas matas também eram território de disputa.

De um lado, uma sociedade escravista tentando controlar africanos, terras e produção.

Do outro, africanos que haviam escapado desse controle e buscavam construir uma existência própria.

O quilombo era uma ruptura concreta com a ordem escravista.

NÃO ERA APENAS ESCONDER-SE

Existe outro aspecto particularmente importante.

Os registros reunidos pelo Impressões Rebeldes indicam que comunidades quilombolas possuíam roças e relações com comerciantes locais.

Isso muda a maneira de imaginar um quilombo.

Não era simplesmente um grupo africano escondido na floresta esperando sobreviver.

Era necessário plantar.

Produzir.

Alimentar a comunidade.

Estabelecer relações.

Circular.

Obter recursos.

Construir estratégias.

Criar vínculos.

Ou seja:

havia organização social africana.

A floresta podia ser refúgio, mas também era espaço de construção de outra forma de vida.

PIRAÍ E UMA GEOGRAFIA MAIOR DA RESISTÊNCIA

E aqui a história fica ainda mais interessante.

O registro do Quilombo do Rio Guandu não deve ser retirado do contexto regional.

O Impressões Rebeldes também documenta comunidades quilombolas associadas à região da Serra dos Órgãos e ao eixo do Rio Guandu e do Paraíba do Sul.

Isso não significa que todos esses grupos formassem um único quilombo ou uma única organização.

A documentação não permite afirmar isso.

Mas revela algo importante:

o território fluminense possuía diferentes espaços de circulação e resistência de africanos que haviam fugido da escravização.

Piraí aparece dentro dessa geografia histórica.

O Guandu conecta-se à grande paisagem hidrográfica do território fluminense, enquanto o Paraíba do Sul constituía um importante eixo de circulação pelo interior.

Assim, Piraí não pode ser compreendida historicamente apenas como uma cidade que surgiu e depois foi transformada pelo café.

Antes da riqueza cafeeira, já existiam conflitos pela ocupação do território e pela liberdade de africanos submetidos à escravização.

A RESPOSTA DAS AUTORIDADES

A existência dos quilombos preocupava profundamente a administração colonial.

Expedições eram organizadas para localizar e destruir essas comunidades.

As tropas podiam destruir casas e roças e capturar africanos quilombolas.

Em determinadas circunstâncias, indígenas eram utilizados como auxiliares por conhecerem melhor as matas e os caminhos da região.

A repressão fazia parte da tentativa de restabelecer o controle sobre africanos que haviam escapado da escravização.

Mas há um episódio de 1699 que acrescenta uma camada ainda mais forte a essa história.

O governador Artur de Sá e Meneses organizou uma campanha contra comunidades quilombolas.

Houve mortes.

E os próprios acontecimentos provocaram uma resposta da Coroa portuguesa.

QUANDO A PRÓPRIA COROA MANDOU INVESTIGAR A VIOLÊNCIA

Em 8 de junho de 1699, Artur de Sá e Meneses escreveu ao rei Pedro II relatando os acontecimentos.

Meses depois, em 24 de setembro, veio a resposta régia.

A Coroa determinou a realização de uma devassa, uma investigação destinada a apurar as mortes ocorridas durante a expedição.

O documento estabelecia uma distinção:

se as mortes tivessem ocorrido durante resistência dos africanos quilombolas, a situação deveria ser analisada dessa maneira; mas, se africanos tivessem sido mortos voluntariamente sem oferecer resistência que justificasse a ação, os responsáveis deveriam ser punidos.

Existe aqui uma ressalva histórica indispensável:

não é possível afirmar que a expedição de 1699 tenha destruído especificamente o Quilombo do Rio Guandu.

A documentação disponível não permite estabelecer essa ligação com segurança.

Mas o episódio demonstra a violência que podia acompanhar as campanhas de repressão aos quilombos no Rio de Janeiro colonial.

UMA RESPOSTA À ESCRAVIZAÇÃO

O Quilombo do Rio Guandu surgiu em um contexto de utilização de mão de obra africana escravizada.

A fuga constituía uma das formas de resistência à escravização.

Quando africanos fugiam e estabeleciam uma comunidade nas matas, criavam uma alternativa coletiva à vida sob o domínio dos proprietários.

O quilombo representava, portanto, não apenas uma fuga, mas a construção de uma forma de existência fora do controle direto das fazendas.

As autoridades podiam destruir casas e roças e capturar africanos quilombolas.

Mas a própria existência desses mocambos demonstra que a escravização nunca foi aceita de maneira passiva por todos os africanos submetidos a ela.

PIRAÍ NÃO COMEÇA NO CAFÉ

Essa talvez seja a maior força histórica do Quilombo do Rio Guandu.

Ele nos obriga a mudar a ordem da narrativa.

Piraí não começa no café.

Antes dos cafezais, havia território.

Antes das grandes fazendas, havia disputas.

Antes da riqueza produzida pela escravização, havia africanos submetidos à violência desse sistema.

E antes que a história oficial registrasse grandes fortunas, já havia africanos fugindo para as matas em busca de liberdade.

Em 1691, um documento colonial registrou a existência de um mocambo nas cabeceiras do Rio Guandu.

Hoje, mais de três séculos depois, esse registro nos devolve uma história que ainda precisa ser conhecida.

Talvez o Quilombo do Rio Guandu não seja apenas uma história sobre 1691.

Talvez seja uma das portas de entrada para descobrir uma Piraí africana que ainda não aprendemos a contar.

NA LINHA DE FRENTE COM BARÃO

Nossa História também é o Nosso Futuro.

Por Barão do Piraí

Análises políticas, história, raça e resistência no nosso Pequeno Gigante Negro.

A Folha do Café não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nessa coluna