A história de Piraí está sendo reconstruída a partir dos seus próprios documentos.

Uma primeira descoberta nos levou a 1691, quando registros coloniais mencionaram um quilombo nas cabeceiras do Rio Guandu, revelando a presença de africanos que haviam fugido da escravização e construído uma comunidade de resistência.

Agora, uma nova descoberta nos conduz a outro momento.

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1760.

E a narrativa muda.

Desta vez, o documento não nos leva primeiro às matas e à resistência. Ele nos leva à formação econômica do território, ao mercado do Rio de Janeiro e às origens africanas de pessoas que foram incorporadas compulsoriamente à economia local.

É nesse ponto que aparecem dois nomes que ampliam a geografia da história de Piraí:

Angola e Moçambique.

UMA PIRAÍ LIGADA A OUTROS MUNDOS

O documento preservado no Arquivo Histórico de Piraí situa, a partir de 1760, um processo de ocupação e formação econômica da região, envolvendo atividades como o cultivo da cana-de-açúcar, a produção de açúcar e aguardente, a criação de gado e a exploração de madeira.

É dentro desse processo que surge uma informação especialmente significativa.

Africanos escravizados procedentes de Angola e Moçambique foram incorporados à economia local.

O registro menciona ainda a Companhia Gonçalves de Moraes & Portugal, que adquiriu, no mercado do Rio de Janeiro, africanos escravizados vindos de Angola e Moçambique.

E essa informação muda a escala da nossa investigação.

Piraí não aparece mais apenas como um território em processo de formação.

Ela aparece conectada a uma rede que atravessava enormes distâncias:

África → Atlântico → Rio de Janeiro → Piraí.

Uma conexão que coloca a formação econômica do território dentro de uma estrutura muito maior: o tráfico atlântico de africanos e sua distribuição compulsória pelo Brasil.

Estudos sobre o tráfico no século XVIII mostram justamente a dimensão dessas redes e a importância das conexões entre portos africanos, Lisboa, Rio de Janeiro e outras áreas do mundo português. 

ANGOLA E MOÇAMBIQUE NÃO SÃO APENAS NOMES

Quando o documento registra Angola e Moçambique, não estamos diante de simples referências geográficas.

Estamos diante de origens africanas.

É preciso lembrar que essas denominações, no século XVIII, não correspondiam exatamente aos atuais Estados nacionais. Tratava-se de territórios africanos muito mais amplos e diversos, compostos por diferentes povos, comunidades e estruturas políticas.

Por isso, dizer que determinados africanos eram procedentes de Angola ou Moçambique não significa que conhecemos automaticamente sua identidade étnica, sua comunidade de origem ou sua localidade específica.

Mas significa algo fundamental:

o documento preservou a ligação desses africanos com diferentes regiões do continente africano.

E essa informação chegou até nós porque o sistema escravista registrava vidas humanas dentro de operações econômicas.

ELES NÃO VIERAM PARA “TRABALHAR”

Essa parte da história não pode ser suavizada.

Esses africanos não chegaram a Piraí como trabalhadores livres em busca de oportunidades.

Foram traficados, escravizados e submetidos ao trabalho compulsório.

Foram retirados de seus territórios, separados de famílias e comunidades, transportados através do Atlântico e inseridos à força em uma sociedade escravista.

Depois da travessia, muitos foram encaminhados para diferentes regiões de acordo com as necessidades econômicas dos proprietários.

O Rio de Janeiro fazia parte dessa engrenagem.

E o documento de Piraí ajuda a enxergar o momento seguinte dessa história: a chegada desses africanos ao interior e sua incorporação à economia que estava se estruturando na região.

O porto era apenas uma etapa.

Depois dele vinham os caminhos.

E um desses caminhos chegava a Piraí.

1760 NÃO É A DATA DA PRIMEIRA CHEGADA

Existe uma distinção histórica que precisa ser preservada.

Não podemos afirmar que 1760 foi o ano em que os primeiros africanos chegaram a Piraí.

A descoberta de 1691 já demonstra que a presença africana e a resistência à escravização estavam presentes na região décadas antes.

Portanto, a importância de 1760 é outra.

O documento situa nesse período um processo de ocupação e formação econômica do território e, dentro desse processo, registra africanos escravizados procedentes de Angola e Moçambique.

Essa precisão é importante.

Porque a força da descoberta não está em inventar uma data.

Está justamente em deixar que os documentos revelem o que podemos afirmar.

E eles já revelam muito.

PIRAÍ NÃO ESTAVA ISOLADA

A formação econômica de Piraí acontecia dentro de uma rede.

Cana-de-açúcar.

Açúcar.

Aguardente.

Criação de gado.

Madeira.

Comércio.

E trabalho compulsório.

Ao mesmo tempo, havia uma conexão com o mercado do Rio de Janeiro e, por meio dele, com circuitos muito mais amplos do tráfico atlântico.

Isso significa que a história econômica de Piraí não pode ser separada da história da escravização.

Os produtos produzidos no território tinham valor econômico.

As propriedades precisavam de trabalho.

E o sistema escravista fornecia esse trabalho por meio da violência, da coerção e do tráfico de africanos.

É nesse cruzamento entre economia, território e escravização que essa nova descoberta ganha força.

E ENTÃO VIRIA O CAFÉ

O café ainda transformaria profundamente o Vale do Paraíba.

A produção cresceria.

As propriedades se expandiriam.

A demanda por africanos escravizados aumentaria.

A riqueza produzida pelo café transformaria a paisagem econômica e social da região.

Mas existe uma história anterior.

O café não criou a presença africana em Piraí.

Quando os grandes cafezais passaram a dominar a paisagem do Vale, africanos já faziam parte da formação econômica do território.

Já estavam presentes em diferentes contextos.

Já haviam sido submetidos ao trabalho compulsório.

Já haviam construído relações, famílias e comunidades.

E alguns também haviam resistido.

Por isso, olhar apenas para o período do café pode produzir uma imagem incompleta da história negra de Piraí.

A história começa antes.

O ARQUIVO ESTÁ ABRINDO NOVAS PORTAS

Talvez seja essa a maior importância dessa descoberta.

Não estamos criando uma narrativa para preencher um vazio.

Estamos encontrando rastros documentais.

E cada rastro pode levar a outro.

Um inventário pode revelar nomes.

Um testamento pode revelar relações familiares.

Um registro paroquial pode revelar nascimento, casamento ou morte.

Uma ação judicial pode revelar uma luta pela liberdade.

Um livro de notas pode revelar uma transação.

E uma referência a Angola ou Moçambique pode abrir uma investigação sobre a origem de africanos que passaram por Piraí.

A própria existência de acervos históricos voltados à documentação da escravidão demonstra como registros desse tipo podem ser fundamentais para reconstruir trajetórias que foram reduzidas, durante séculos, a registros comerciais. 

Agora, a pergunta deixa de ser apenas se havia africanos.

Passa a ser:

quem eram eles?

De onde vieram?

Quais eram seus nomes?

Quantos eram?

Para quais propriedades foram enviados?

Quem os comprou?

Quem os vendeu?

Que famílias formaram?

Que descendentes deixaram?

Quanto mais procuramos, mais a história se amplia.

UMA NOVA PEÇA NA HISTÓRIA DE PIRAÍ

A descoberta de 1760 não substitui a descoberta de 1691.

Ela acrescenta uma nova peça.

Em 1691, encontramos a resistência africana nas cabeceiras do Guandu.

Agora, em outro momento histórico, encontramos africanos procedentes de Angola e Moçambique, ligados ao mercado do Rio de Janeiro e à formação econômica do território.

São contextos diferentes.

São documentos diferentes.

São histórias diferentes.

Mas, juntos, eles começam a revelar uma sequência.

Piraí já estava conectada à história africana antes da consolidação dos grandes cafezais.

E isso muda a maneira de olhar para o passado.

A história negra de Piraí não pode ser apresentada como algo que apareceu depois.

Ela está nos próprios processos de formação do território.

Está na resistência.

Está na economia.

Está no trabalho.

Está nas famílias.

Está na cultura.

Está na memória.

E está nos arquivos.

NOSSA HISTÓRIA TAMBÉM É O NOSSO FUTURO

Talvez ainda saibamos muito pouco sobre os africanos que passaram por Piraí no século XVIII.

Mas agora temos novas pistas.

Angola.

Moçambique.

Rio de Janeiro.

Piraí.

Quatro referências que nos permitem começar a reconstruir uma história que atravessou o Atlântico e chegou ao interior do Vale do Paraíba.

Uma história marcada pela violência da escravização, mas também pela presença, pela resistência e pela construção de vidas negras.

E quanto mais os arquivos são investigados, mais evidente fica que precisamos olhar para a história de Piraí para além dos cafezais.

Porque antes da paisagem dos grandes cafezais havia outra história sendo construída.

A África já estava aqui.

E agora uma nova revelação começa a mostrar de onde vieram alguns desses africanos e por quais caminhos essa história chegou a Piraí.

Nossa História também é o nosso futuro.

Na Linha de Frente com Barão

Análises políticas, história, raça e resistência no nosso Pequeno Gigante Negro.

Por: Willians Falcão - Barão de Piraí

A Folha do Café não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nesta coluna