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A história de Piraí guarda documentos importantes que comprovam que a mão de obra escravizada foi responsável pela construção de grande parte das riquezas do município e do Vale do Café. Durante muito tempo, essa contribuição permaneceu invisível, enquanto a história oficial exaltava apenas os grandes fazendeiros, políticos e proprietários de terras.
Entre esses registros está um documento raro sobre a construção da Igreja Matriz de Santana, que identifica, pelo nome, homens escravizados que trabalharam diretamente na obra. Em um período em que pessoas negras eram tratadas como propriedade, o livro de despesas preservou aquilo que a história oficial quase apagou: seus nomes e seus ofícios.
Ali estão registrados Joaquim, Pedro, Félix, Domingos, Mathias, Ventura, Dinarte, José e Hypólito, além de outros trabalhadores identificados pela função, como Joaquim Cavouqueiro, responsável pela extração e transporte das pedras; José Cozinheiro e Joaquim Carreiro. Não eram trabalhadores improvisados. Eram homens que dominavam técnicas de construção, transporte de materiais e organização da obra.
O documento revela ainda que Domingos, pedreiro, recebia o maior valor diário registrado, enquanto auxiliares e serventes tinham remunerações menores. Mas esse dinheiro não lhes pertencia. Era pago aos seus proprietários, enquanto os verdadeiros construtores permaneciam submetidos ao regime da escravidão.
Outro dado impressionante é o registro da execução de 139 serviços de adobes, os tradicionais tijolos de terra crua, água e palha, fundamentais para a construção da igreja. Também consta que todos esses trabalhadores vieram de Guaratinguetá, na então Província de São Paulo, acompanhando o mestre de obras Ignácio Ferreira Pinto. Isso demonstra que o deslocamento de grupos de pessoas escravizadas para atender grandes construções era uma prática consolidada no Brasil Imperial.
Esses registros desconstroem uma narrativa repetida por décadas: a de que igrejas, casarões e monumentos foram erguidos apenas pelo talento dos mestres de obras ou pela iniciativa de seus financiadores. A realidade é outra. O patrimônio histórico brasileiro foi construído, em grande medida, pelo conhecimento, pela força física e pelo trabalho compulsório da população negra escravizada.
Resgatar esses nomes é mais do que um exercício de memória. É um ato de justiça histórica. Joaquim, Pedro, Félix, Domingos, Mathias, Ventura, Dinarte, José e Hypólito deixaram sua marca nas pedras da Igreja Matriz de Santana. Durante muito tempo, porém, seus nomes permaneceram escondidos atrás das figuras dos proprietários, administradores e autoridades da época.
A preservação da memória não pode se limitar aos prédios históricos. É preciso preservar também a história das pessoas que os construíram. Sem elas, não haveria igrejas, fazendas, estradas, pontes ou cidades. Ao reconhecer esses trabalhadores, Piraí dá um passo importante para compreender sua própria formação. Valorizar a contribuição da população negra não significa reescrever a história; significa contá-la de forma mais completa, mais justa e mais verdadeira.
A história documentada não deixa dúvidas: antes de serem invisibilizados, esses homens foram construtores. Foram eles que ergueram igrejas, abriram caminhos, levantaram fazendas e ajudaram a construir a riqueza do Vale do Café.
Reconhecer esse legado é fazer justiça àqueles que, por séculos, foram apagados da memória oficial.
Nós, negros, construímos Piraí. Construímos o Vale do Café. Construímos o Brasil.
Por Barão do Piraí
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