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Existe um silêncio no centro de Piraí, mas não é um silêncio qualquer é um silêncio que fala. Ele está nas vitrines, nas fachadas, nos contratos, nas escrituras. Ele está nos nomes que se repetem nas placas de ruas e comércios, ele está na ausência. Onde estão os empresários negros do centro da Rua Barão do Piraí?
Essa não é uma pergunta retórica. É um incômodo real, é uma provocação necessária. Porque basta caminhar pelo coração econômico da cidade para perceber: não há negros ocupando esses espaços como proprietários. E quando uma ausência é tão evidente, ela deixa de ser coincidência.Ela passa a ser estrutura.
Piraí carrega, como tantas cidades brasileiras, uma herança que nunca foi enfrentada de forma honesta. A escravidão não terminou com inclusão. Terminou com abandono. E, enquanto os corpos negros foram libertos sem terra, sem renda e sem oportunidades, outros grupos consolidaram patrimônio, acesso e poder.
Hoje, décadas depois, os sobrenomes tradicionais continuam ocupando os mesmos espaços não apenas físicos, mas econômicos e políticos. São esses nomes que mantêm o protagonismo, que herdaram imóveis, que ampliaram negócios, que circulam entre o poder público e o privado com naturalidade. E os negros? Ficaram fora da herança.Ficaram fora do crédito.Ficaram fora da propriedade, isso tem nome:Racismo estrutural.
Não é preciso um cartaz dizendo “proibido”o sistema já faz esse trabalho sozinho. Quando não há acesso ao capital, quando não há incentivo, quando não há políticas de inclusão econômica, quando o mercado não abre portas o resultado é esse: centros comerciais homogêneos, onde a diversidade da população não se reflete na posse, apenas na circulação.
Negros consomem no centro, negros trabalham no centro mas não são donos do centro. E isso precisa ser dito. Não como ataque, mas como verdade. A cidade que se orgulha de sua história precisa ter coragem de encarar o que escolheu não ver. Porque desenvolvimento sem inclusão é apenas continuidade de privilégio.
A pergunta que fica não é confortável, mas é inevitável: quem teve a oportunidade de ser dono e quem nunca teve sequer a chance? E mais: até quando essa ausência será tratada como algo normal? Se ninguém questiona, tudo permanece. Mas quando se rompe o silêncio, a história começa a ser reescrita. E Piraí precisa decidir:vai continuar reproduzindo o passadoou vai construir um futuro onde todos possam, de fato, ocupar o centro?
Por: Barão do Piraí
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