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Escrevo este texto com a consciência de que ele só é possível porque existe uma liberdade que costumamos tratar como óbvia e que justamente por isso, corremos o risco de não valorizar até o dia em que ela falta. Falo da liberdade de expressão, esse direito silencioso que age nos bastidores de quase tudo o que consideramos importante na vida pública.
Confesso que por muito tempo, encarei a liberdade de expressão como um tema distante, próprio de debates jurídicos ou de discursos solenes. Foi só ao observar o mundo com mais atenção que entendi o quanto ela se faz presente no cotidiano. Está no jornalista que denuncia um desmando, no professor que questiona uma ideia estabelecida, no cidadão comum que reclama de um serviço público, no artista que incomoda e no vizinho que discorda de mim em uma conversa de calçada. Sem esse direito, todos esses gestos, pequenos e grandes, simplesmente deixariam de existir.
Penso que a maior força da liberdade de expressão está em uma função quase invisível: ela é a condição de todos os outros direitos. Não há como fiscalizar o poder, cobrar transparência ou corrigir injustiças em uma sociedade onde não se pode falar. É pela palavra livre que os erros vêm à tona e que as mudanças começam. Uma democracia que silencia suas vozes discordantes não é uma democracia mais organizada; é apenas uma democracia mais frágil, porque perdeu a capacidade de se enxergar e de se corrigir.
Isso não significa, é claro, que a liberdade de expressão seja um direito sem limites. Ela convive com outros valores igualmente importantes, como a dignidade das pessoas e a verdade dos fatos. A liberdade de falar não se confunde com a licença para caluniar, para incitar a violência ou para destruir reputações com mentiras. Reconhecer esses limites não enfraquece o direito; ao contrário, o fortalece, porque o distingue do abuso. A liberdade responsável é aquela que sabe que a palavra tem peso e consequências e que, por isso mesmo, deve ser exercida com coragem, mas também com consciência.
Vivemos um tempo em que essa reflexão se torna ainda mais urgente. As redes sociais ampliaram como nunca a nossa capacidade de nos expressar, dando voz a quem antes não a tinha. É uma conquista extraordinária. Mas o mesmo espaço que democratizou a fala também abriu caminho para a desinformação, o ódio e a intolerância. O desafio da nossa geração não é escolher entre ter ou não ter liberdade de expressão e sim aprender a exercê-la com maturidade, distinguindo o direito de opinar do dever de respeitar.
A Folha do Café não se responsabiliza pelas opiniões emitidas nesta coluna
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