Há nomes que aparecem nos livros de história. Outros permanecem escondidos nas entrelinhas, nos documentos, nas memórias familiares e nas lembranças que atravessam gerações.

 

A história de João Ribeiro da Cruz, conhecido como João Grande, pertence a essa segunda categoria.

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Sua trajetória atravessa diferentes momentos da história brasileira: a escravidão, a chegada da ferrovia, as transformações do Vale do Paraíba, a Abolição e a República. Um homem negro que teria começado sua trajetória como fogueteiro e, posteriormente, chegado ao Rio de Janeiro, onde se tornou maquinista.

 

É uma história que merece ser conhecida — especialmente quando olhamos para a formação histórica de Piraí e para a presença negra na construção do desenvolvimento da região.

 

Do fogo aos trilhos

 

Durante o século XIX, os fogueteiros exerciam atividades importantes em diferentes regiões do Brasil. Fogos de artifício, foguetes e rojões eram utilizados em festas religiosas, comemorações, eventos públicos e outras ocasiões.

 

João Ribeiro da Cruz teria exercido esse ofício na Bahia, sendo conhecido como João Grande.

 

O detalhe não é apenas uma curiosidade profissional.

 

O domínio de uma atividade como essa exigia conhecimento, habilidade e responsabilidade. Entretanto, dentro da sociedade escravista, pessoas negras eram frequentemente identificadas nos registros a partir da condição que lhes havia sido imposta: a de escravizadas.

 

É fundamental fazer essa distinção.

 

João era um homem negro que foi submetido à escravidão. A escravidão não define toda a sua existência.

 

Sua trajetória demonstra que, mesmo dentro de uma sociedade estruturada pelo racismo e pela escravização, homens e mulheres negros exerciam diferentes ofícios, acumulavam conhecimentos e participavam de atividades fundamentais para o funcionamento da sociedade.

 

A chegada a Piraí

 

A trajetória de João o levou posteriormente ao Rio de Janeiro.

 

Foi nesse contexto que ele passou a atuar como maquinista e chegou ao Médio Vale do Paraíba Fluminense.

 

Em 1883, a Estrada de Ferro Carril Piraiense foi inaugurada, inserindo Piraí em uma nova dinâmica de circulação de pessoas e mercadorias.

 

A ferrovia representava modernização.

 

Mas a história não pode ser contada apenas pelo olhar do progresso.

 

Em 1883, o Brasil ainda vivia sob o regime escravista. A Lei Áurea só seria assinada cinco anos depois.

 

Isso significa que os mesmos trilhos que transportavam café, mercadorias e passageiros atravessavam uma sociedade na qual milhares de pessoas negras continuavam submetidas à escravização.

 

É nesse cenário que a trajetória de João Ribeiro da Cruz ganha importância.

 

Um homem negro estava na condução de uma das máquinas que simbolizavam a modernização daquela região.

 

Um maquinista negro em um Brasil escravista

 

Segundo a memória histórica preservada sobre sua trajetória, João Ribeiro da Cruz teria sido o primeiro maquinista negro ligado à ferrovia de Piraí.

 

A afirmação de pioneirismo, naturalmente, merece ser confrontada com documentos ferroviários, jornais da época e outras fontes históricas. Mas, mesmo diante da necessidade de aprofundar essa documentação, sua presença como maquinista negro já nos permite fazer uma pergunta fundamental:

 

onde estão os trabalhadores negros nas narrativas sobre o desenvolvimento de Piraí?

 

A história econômica do Vale do Paraíba costuma destacar o café, as fazendas, os grandes proprietários e a expansão ferroviária.

 

Mas nenhuma dessas estruturas funcionaria sem trabalhadores.

 

E a população negra estava no centro desse processo.

 

O trem e a escravidão

 

Existe uma dimensão ainda mais profunda nessa história.

 

Em 1883, quando João já estava relacionado à ferrovia de Piraí, a escravidão ainda era uma realidade legal no Brasil.

 

Consequentemente, a circulação ferroviária daquele período estava inserida em uma sociedade escravista. Os trens transportavam pessoas e mercadorias e, naquele contexto, pessoas escravizadas também poderiam ser transportadas pelas ferrovias.

 

É importante, entretanto, separar o contexto histórico daquilo que está documentalmente comprovado sobre João.

 

Não dispomos, neste relato, de documentação específica que permita afirmar quais pessoas ele transportou ou se, em determinada viagem, conduziu pessoas escravizadas.

 

O que podemos afirmar é que João era um homem negro exercendo a função de maquinista em uma região cuja economia estava profundamente ligada à escravidão.

 

Essa contradição é poderosa.

 

Um homem negro conduzindo uma locomotiva enquanto o Brasil ainda mantinha pessoas negras escravizadas.

 

A história que ficou fora dos livros

 

João permaneceu durante muitos anos como maquinista do trem de Piraí.

 

Sua vida, porém, ultrapassou os limites da ferrovia.

 

Ele teria vivido 99 anos, falecendo em 22 de dezembro de 1962.

 

Nasceu em um Brasil escravista e morreu em outro Brasil, décadas depois da Abolição.

 

Entre esses dois momentos, viveu algumas das maiores transformações da história brasileira.

 

A escravidão terminou.

 

O Império terminou.

 

A República chegou.

 

As cidades se transformaram.

 

As ferrovias avançaram.

 

Novas tecnologias surgiram.

 

E João permaneceu como testemunha de um século de mudanças.

 

Quantos outros ficaram esquecidos?

 

É justamente aqui que a história de João Ribeiro da Cruz deixa de ser apenas uma biografia.

 

Ela se transforma em uma pergunta sobre memória.

 

Quantos trabalhadores negros participaram da construção de Piraí e nunca tiveram seus nomes registrados nas narrativas oficiais?

 

Quantos ferroviários?

 

Quantos trabalhadores das fazendas?

 

Quantos artesãos?

 

Quantas mulheres negras?

 

Quantos mestres de ofício?

 

Quantos homens e mulheres que produziram conhecimento, cultura e riqueza foram reduzidos a uma condição social e depois esquecidos?

 

O apagamento histórico não acontece somente quando alguém destrói um documento.

 

Ele também acontece quando uma sociedade escolhe quem merece ser lembrado.

 

Por isso, recuperar o nome de João é mais do que resgatar uma memória individual.

 

É ampliar a própria história de Piraí.

 

João Grande precisa voltar aos trilhos

 

Hoje, quando olhamos para a antiga história ferroviária de Piraí, é possível enxergar muito mais do que locomotivas.

 

Podemos enxergar os trabalhadores que fizeram aquelas máquinas funcionar.

 

Podemos enxergar a presença negra em uma região cuja riqueza foi construída em grande medida sobre o trabalho de pessoas escravizadas.

 

Podemos enxergar as contradições de um país que falava em progresso enquanto ainda sustentava a escravidão.

 

E podemos reconhecer homens como João Ribeiro da Cruz.

 

João Grande não é apenas um nome do passado.

 

É uma oportunidade de reconstruirmos a maneira como contamos a história.

 

Porque a história de Piraí também foi conduzida por mãos negras.

 

E talvez seja justamente por isso que precisamos voltar aos trilhos.

 

Não para repetir a história que já conhecemos.

 

Mas para descobrir aqueles que ficaram pelo caminho.

 

João Ribeiro da Cruz morreu em 22 de dezembro de 1962, aos 99 anos.

 

Mas seu nome pode voltar a ocupar o lugar que nunca deveria ter perdido:

 

o da memória de Piraí.

 

Fontes e referências

 

- Saga dos Breves — referência histórica utilizada para a reconstrução da trajetória de João Ribeiro da Cruz e sua relação com a atividade ferroviária.

- Arquivo Municipal de Piraí — documentação e registros históricos relacionados à história do município e à ferrovia.

- Dos Pretos Velhos aos Pretos Novos — referência para a compreensão da presença, trajetória e memória da população negra no contexto histórico abordado.

 

Esta coluna busca valorizar a memória histórica e racial de Piraí, distinguindo informações documentadas de relatos e memórias históricas que ainda podem demandar investigação e confirmação em fontes primárias.

NA LINHA DE FRENTE COM BARÃO DO PIRAÍ

 

Análises políticas, história, raça e resistência no nosso Pequeno Gigante Negro.

A Folha do Café não responsabiliza pelas opiniões emitidas nessa coluna