Valença - Há cidades que guardam suas histórias em museus. Em Conservatória, distrito de Valença, no Sul Fluminense, parte dessa memória está nas ruas, nas placas afixadas nas fachadas das casas e nas vozes que, noite após noite, mantêm viva uma tradição musical. Conhecida como a capital das serestas e serenatas, a localidade transformou antigas canções de amor em uma marca de sua identidade cultural e em um patrimônio que atravessa gerações.

O reconhecimento dessa importância também passa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A Lei 5.564/09 criou o Polo Cultural, Histórico e Turístico de Conservatória, prevendo ações de valorização e recuperação do patrimônio material e imaterial, além da divulgação de eventos e do incentivo ao desenvolvimento turístico. Mais recentemente, a Lei 11.149/26 incluiu o Dia do Seresteiro de Conservatória, celebrado em 31 de maio, no calendário oficial do estado.

As duas iniciativas reforçam o papel da legislação estadual na valorização de uma tradição que vai além da música e envolve memória, identidade, formação artística e geração de renda para a população local.

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Uma tradição que resiste ao tempo

A história musical de Conservatória remonta ao século XIX, quando a expansão da cafeicultura movimentava o Vale do Café e favorecia a circulação de músicos e manifestações culturais. Relatos históricos associam as origens dessa tradição às modinhas cantadas por tropeiros e aos saraus promovidos por famílias da região.

Desde então, a música passou a fazer parte da identidade do distrito. Todos os fins de semana, seresteiros percorrem as ruas da localidade e param diante das casas para cantar as canções identificadas nas placas afixadas pelos moradores, com os títulos das músicas e os nomes de seus compositores. O ritual reúne visitantes e moradores e mantém viva uma tradição que se tornou marca registrada da região.

Segundo Edgar Vilela, coordenador da Serenata de Conservatória, a prática, que já foi comum em muitas cidades brasileiras, perdeu espaço ao longo do tempo, mas permaneceu no distrito. “Aqui a gente canta desde 1850 e o objetivo é preservar as canções”, afirma.

Para Edgar, manter as serenatas vivas é também preservar canções que marcaram a história da música brasileira e que hoje já não têm o mesmo espaço nos meios de comunicação. “Como essas músicas não tocam mais nas rádios e na televisão, a gente acaba sendo responsável por preservar a música popular brasileira e a música romântica”, explica.

Arte que atravessa gerações

Preservar a cultura de Conservatória também significa formar novos artistas e aproximar diferentes gerações da música. É nesse caminho que atua Juliana Maia, cantora e fundadora do Teatro Sonora/Petrobras e do Centro Cultural Juliana Maia.

Criada no distrito, ela cresceu cercada pela música e pela poesia, influenciada também pelo avô seresteiro. A experiência despertou o desejo de cantar e, mais tarde, de criar espaços dedicados à formação artística e à valorização da cultura local.

Em 2011, Juliana fundou o teatro e ampliou sua atuação com o centro cultural, iniciativas voltadas à cultura e ao surgimento de novos talentos. Para ela, manter essa herança viva exige também conquistar novos públicos. “A gente precisa valorizar nossa tradição porque as serenatas e serestas são a nossa identidade”, afirma.

Um dos frutos desse trabalho é a Orquestra Harmônicos de Conservatória, que já se apresentou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro com o concerto Seresta. A iniciativa leva a música da cidade a novos palcos e mostra como a tradição pode se renovar sem perder suas raízes.

O impacto da música na economia local

Em Conservatória, a música é também um importante motor do turismo e da economia local. Para Humberto Piauí, curador do Museu Vicente Celestino, a programação musical é fundamental para a atividade econômica da região. “Boa parte da economia de Conservatória gira em torno da música. As serestas realizadas todos os fins de semana atraem visitantes, que vêm conhecer e acompanhar essa tradição”, destaca.

Humberto ressaltou a importância das leis do Polo Cultural, Histórico e Turístico de Conservatória, que prevê medidas de preservação do patrimônio, capacitação profissional e divulgação dos eventos locais; e da inclusão do Dia do Seresteiro de Conservatória no calendário oficial do estado. “Essas leis dão mais visibilidade à nossa história e ajudam a buscar recursos para manter viva a cultura de Conservatória”, destaca.

Com informações da ALERJ