O grande problema relacionado às mentiras atualmente – tempos da internet e da rápida propagação das informações -  não se resume apenas à veiculação da mentira pura e simples, o que é, por óbvio, condenável, mas também a suspeição que, por conta disso, recai sobre a verdade e sobre as pessoas. São dois estragos concomitantes: a mentira por si mesma e a desconfiança que, como uma capa furta-cor, envolve o correto, o verdadeiro.

Ora, se somos tomados pela descrença generalizada, causada por tantas mentiras incansavelmente repetidas como se fossem verdades, perdemos, sob certo aspecto, nossa capacidade de acreditar, de dar crédito, de ter fé.

"A fé é o fundamento da esperança." Esse é um conceito bíblico sobre a Virtude Teologal, mas perfeitamente aplicável às demais esferas. Se perdemos totalmente a fé nas pessoas e nas instituições; se somos quase forçados, dada a enxurrada de mentiras, a suspeitar de tudo e de todos, ela, a fé, que tanto nos sustenta e que fundamenta a esperança, é ferida, abalada. Abalado o fundamento, desmorona-se a edificação.

Não sem motivo, tantos de nós estamos desanimados, sem esperança, dizemos, “não tem jeito, não.” Não sem motivo, também, a Bíblia ensina que "o demônio é o pai da mentira." Ele, sim,  é o pai da mentira maior, na qual caíram os nossos primeiros pais: "Se comeres (se desobedeceres), sereis como deuses." Mas é também o pai das "pequenas mentiras", recorrentes, cotidianas, veniais.

Dom Fernando Rifan, em excelente artigo intitulado "Fake News", faz as seguintes e sábias considerações:

 

“A nossa inteligência, pela sua natureza, é dirigida para a verdade e só para a verdade; daí que ela só pode ser atraída pela mentira se essa tiver algo ou aparência de verdade. Caso contrário, não atrairia a inteligência. Por isso, a pior mentira é a que se parece com a verdade, ou que tem um pouco de verdade. E tanto pior quanto mais se parece com ela. [...] E costuma-se dizer que uma mentira é má pela sua falsidade, mas é perigosa pela sua aparência com a verdade. Uma cadeira comum, à qual falta uma perna, é má pela perna que falta, mas é perigosa pelas três que tem. Engana e faz cair quem nela for se sentar. Toda caricatura tem algo do caricaturado.”

 

Talvez um primeiro passo na direção de tempos melhores seja uma clara e firme opção pela verdade. Não por uma verdade que se relativiza, volátil como o éter ou os humores, mas por uma verdade objetiva, que se concretize em pequenos e corajosos atos diários. Não a verdade das grandes mídias, tão sujeitas às ideologias e aos interesses econômicos, mas a verdade nas relações com quem convivemos, conosco mesmos e com nossos irmãos. Sermos amigos dela, da verdade, íntimos não somente ao ponto de conhecê-la, mas de reconhecê-la nos outros, também.

Por outro lado, não devemos crer em tudo, ou acreditar em algo apenas porque gostaríamos que fosse verdade. O mal é mau. Ele conhece o germe do orgulho e da vaidade que trazemos, sabe como sempre e tanto  queremos “ter razão”, estarmos certos, sermos “espertos”, não “despertos”. Mas o que, de fato, muitas vezes temos não é bem  “razão”, e sim “emoção”: sentimentos que gostaríamos de ver validados; a necessidade sermos reconhecidos, inseridos em um grupo, aceitos.

É preciso pensar antes de replicar ou veicular uma informação. Questionar e verificar, sim: há notórios absurdos! Considerar que quem exagera nos argumentos prejudica a causa e, quase sempre, está... mentindo.

É, eu sei, é difícil. Muito. É necessário discernimento e equilíbrio.

Por isso, devemos pedir as luzes do “Espírito da Verdade” para nos orientar sempre.

Quem sabe, ao optarmos pessoalmente pela verdade, recuperemos a fé e, com ela, a esperança que nos leva adiante. A todos nós.

 

Saulo Soares

@saulo.soares.autor

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FONTE/CRÉDITOS: Divulgação