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Lideranças nascem da necessidade. Crescem na prática. Se consolidam no cuidado diário. São pessoas que estão presentes quando falta tudo: apoio, escuta, solução, dignidade. São elas que sustentam o território quando o poder público não chega. Mas, no momento mais decisivo, o processo político, essas mesmas lideranças desaparecem.
Não por ausência. Mas por ausência de escolha coletiva. Muitas vezes, essas lideranças são criticadas, desacreditadas ou até rejeitadas pela própria comunidade. Outras vezes, sequer se colocam como opção política, e, quando se colocam, enfrentam resistência. E é preciso afirmar com maturidade: ter interesse em ocupar um cargo político não é errado, é parte natural do processo democrático. O problema não está na intenção. Está na falta de reconhecimento coletivo.
A política do cotidiano vs. a política da urna no dia a dia, a comunidade sabe exatamente quem está presente. Sabe quem atende o telefone. Quem escuta. Quem acolhe. Quem resolve, ou, pelo menos, tenta. Mas, durante as eleições, o critério muda. Surgem candidatos com grande estrutura, poder financeiro e campanhas altamente organizadas. A necessidade extrema passa a influenciar decisões. O mecanismo político entra em ação. E assim, a liderança local, que possui legitimidade real, perde espaço para quem tem visibilidade construída. O peso de não se reconhecer como potência. Quando pretos não votam em pretos, quando pessoas de baixa renda não votam em quem vive a mesma realidade, quando mulheres não votam em mulheres, não estamos falando apenas de escolhas individuais.
Estamos falando de um processo histórico que moldou a percepção de poder. Um sistema que, ao longo do tempo, ensinou quem “pode” e quem “não pode” ocupar espaços de decisão. Não é falta de capacidade. É falta de validação coletiva. O retrato de Piraí é um retrato direto desse cenário. Com cerca de 57% da população negra, em sua maioria de baixa renda, seria esperado que essa realidade estivesse refletida nos espaços de poder.
Mas não está. E isso revela um distanciamento profundo entre quem vive os problemas e quem decide sobre eles. O exemplo que escancara o problema: Bairro Asilo possui aproximadamente 4 mil eleitores. Número suficiente para eleger até três representantes municipais. Mas não elegeu nenhum. Por quê? Não é falta de força. É falta de convergência. Quando o voto se dispersa, o poder se concentra, mas fora do bairro. A pergunta que precisa ser feita. Quem está levando vantagem nesse modelo há anos? Quem vive a necessidade todos os dias… ou quem transforma essa necessidade em moeda política?
Quem quer mudança estrutural…ou quem aparece apenas em período eleitoral? Quem oferece soluções reais… ou quem vende promessas?
O ciclo vicioso que aprisiona.
A lógica é dura - mas precisa ser exposta:
1. A comunidade precisa de mudança
2. Agentes externos identificam essa necessidade
3. Apresentam soluções pontuais em ano eleitoral
4. Conquistam o voto
5. Mantêm a dependência
6. E o sistema continua funcionando
Enquanto isso, as lideranças locais seguem atuando sem poder institucional para transformar de verdade. O preço da falta de representação
Sem representatividade: O bairro não decide .O bairro não prioriza. O bairro não avança como poderia. Fica à mercê. Sempre esperando. Sempre dependendo. Romper esse ciclo é uma decisão coletiva. Não se trata de votar em alguém do bairro apenas por proximidade.
Trata-se de reconhecer trajetória, compromisso e capacidade mesmo quando essa pessoa é “igual a você”. Porque, enquanto a comunidade não se enxergar como força política organizada, outros continuarão ocupando esse espaço.
Conclusão: o poder existe, mas está fragmentado. O Bairro Asilo não é fraco. É numeroso. É vivo. É potente. Mas potência sem direção vira dispersão. E dispersão favorece quem já está no controle. No fim, a questão não é apenas política. É consciência política. É preciso parar de repetir que “política não presta” para justificar a ausência. Porque, quando você não participa, alguém decide por você. Ou a comunidade se organiza, se reconhece e se escolhe…ou continuará sendo escolhida pelos mesmos de sempre.
Por: Barão do Piraí
*A Folha do Café não se responsabilizada pelas opiniões emitidas neste artigo.
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