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E mais uma vez, o calendário nos empurrou para a beira do precipício das expectativas. Parece que, com a virada do ano, somos obrigados a apresentar um relatório de performance, um balanço de perdas e ganhos que, muitas vezes, mais nos adoece do que nos impulsiona. Mas até que ponto essa contagem regressiva constante é saudável? Vivemos sob a ditadura de uma régua alheia. Usamos o sucesso, a viagem e o filtro de perfeição do outro para medir a nossa própria felicidade. Usamos terceiros como referências, estabelecendo novas regras do bem-viver a partir do que o outro dita nas redes sociais. Esquecemos que o autoamor, esse exercício fundamental para o nosso mosaico interno, passa obrigatoriamente por ignorar as métricas de quem não caminha com os nossos sapatos.
A vida tem pedido pressa, mas eu, como Lenine canta em Paciência, "me recuso, faço hora, vou na valsa". Porque a vida, meus amigos e minhas amigas, é rara demais para ser vivida apenas na superfície de uma tela portátil de vidro, vulgo celular. Precisamos desacelerar. Precisamos reaprender o que é atenção plena, viver no agora, com verdade. Por que não investir em Mindfulness?
Não é que estejamos ficando menos inteligentes também; estamos ficando desatentos. O consumo desenfreado de conteúdo digital está reduzindo nossa capacidade de mergulhar fundo. Estamos perdendo a sensibilidade para as coisas simples: o pé descalço na grama, o silêncio compartilhado em uma refeição sem notificações no celular, o contato visual que não passa por uma lente.
Quando foi a última vez que você esqueceu que o celular existe? Que brincou com seus filhos, tomou um banho de mangueira ou mergulhou no mar sem a necessidade de registrar e postar seu melhor ângulo? Quando foi que você viveu um momento que não fosse "instagramável" e que tenha dado real satisfação? Nos acostumamos a performar uma normalidade que nos consome. Vestimos máscaras de embelezamento artificial porque a vitrine do mundo exige impecabilidade, mas essa pressa para parecer melhor que o outro só nos deixa sem tempo para o essencial. Sobra tempo para quê? E, principalmente, sobra tempo para quem? Esquece a grama do vizinho e planta a sua. Cuida da sua. De verdade. Com verdade.
Sou cinquentão e aprendi que não tenho mais pressa de viver; tenho uma vontade imensa de viver melhor. E viver melhor exige calma na alma. Exige entender que o mundo espera muito de nós, mas o que nós esperamos de nós mesmos é o que deveria pautar o nosso despertar. No meu mosaico do viver, eu recomeço a cada instante procurando me desapegar dessa frequência digital para recuperar a presença. Entendi que preciso de menos gadgets e mais registros na memória; menos comparação e mais autoacolhimento; mais trilhas nas florestas e menos timelines virtuais. Mais banhos de cachoeira e menos emails. A vida é tão rara. Será que temos mesmo esse tempo todo para perder com o que não nos devolve o brilho nos olhos?
Desejo a você, neste início de ano, o privilégio de um "sorriso na alma" com calma, e a coragem de ser lento em um mundo que insiste em correr para não se sabe onde.
A Folha do Café informa que esse texto é um texto independente e que a opinião nele exposta não representa a linha editorial deste veículo de comunicação.
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