Xumetos, Pitas e Araris no território de Piraí e Barra do Piraí
 
 
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Antes de Piraí e Barra do Piraí existirem como cidades, antes das sesmarias, antes das rotas do ouro e do café, havia povos indígenas com território, cultura e memória. Dados históricos confiáveis indicam que a região do Médio Paraíba Fluminense era habitada por grupos tradicionalmente conhecidos como Xumetos, Pitas e Araris, frequentemente classificados de forma genérica pelos colonizadores portugueses como “coroados”. Esse nome, porém, não revela identidade — revela colonização do olhar.
 
Quem eram esses povos
 
Xumetos / Xumetós: denominação registrada em documentos coloniais para grupos indígenas que habitavam o Vale do Médio Paraíba, abrangendo áreas onde hoje estão Piraí e Barra do Piraí. Pitas / Petas: outro grupo citado em fontes históricas da região, frequentemente associado aos mesmos territórios. Araris: também mencionados como habitantes tradicionais dessas terras. O termo “coroados” não era uma autodenominação indígena. Foi um rótulo imposto pelos europeus, baseado em características visuais  como o corte de cabelo que lembrava uma “coroa”. Nomear, nesse contexto, era controlar.
 
O território antes da ocupação colonial
 
Esses povos viviam de acordo com seus modos tradicionais antes da ocupação portuguesa. As trilhas indígenas existentes foram posteriormente apropriadas pelo sistema colonial, especialmente no século XVIII, com a intensificação do trânsito entre o interior de Minas Gerais e o litoral fluminense, impulsionado pelo ciclo do ouro. O que era caminho indígena virou estrada colonial.
O que era território virou propriedade. Com o avanço da colonização, terras indígenas foram sistematicamente ocupadas por sesmarias grandes concessões de terra entregues a colonos expulsando os povos originários por meio da violência, do deslocamento forçado e do apagamento histórico.
 
O problema dos nomes nos registros coloniais
 
Os nomes Xumetos, Pitas, Araris e Coroados aparecem em documentos e na literatura histórica, mas nem sempre com precisão etnolinguística conforme os critérios atuais. Muitas vezes, esses termos englobam diferentes grupos, com línguas e modos de vida distintos, reduzidos a categorias genéricas pelo olhar colonial. Essa imprecisão não é neutra: ela facilitou o apagamento, transformando povos inteiros em notas de rodapé.
 
O que essa história exige hoje
 
Reconhecer esses povos não é detalhe acadêmico. É revisão de narrativa, justiça histórica e responsabilidade pública.
Quando uma cidade carrega um nome indígena, mas apaga os indígenas da sua história, o que se preserva não é tradição é privilégio.
 
FECHAMENTO — TOM PROVOCATIVO-PEDAGÓGICO
 
Antes de Piraí e Barra do Piraí serem cidades, eram territórios indígenas.
Antes do progresso, houve expulsão.
Antes do silêncio, houve vida.
 
Trazer à luz os Xumetos, Pitas e Araris não é reabrir feridas:
é parar de fingir que elas nunca existiram.
 
Memória é território. Verdade é reparação.
 
FONTES
 
— Arquivo Municipal de Piraí RJ
– Arquivo Nacional (RJ): registros de sesmarias e documentos coloniais do século XVIII
– Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ)
– Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa)
– SPIX, J. B. von; MARTIUS, C. F. P. Viagem pelo Brasil (1817–1820)
– SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagens pelo Rio de Janeiro e Minas Gerais
– CUNHA, Manuela Carneiro da (org.). História dos Índios no Brasil
– ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses Indígenas
– MONTEIRO, John Manuel. Negros da Terra
 
Este texto integra a série Na Linha de Frente com Barão, dedicada à revisão crítica da história local e à valorização da memória dos povos originários.
 
A Folha do Café informa que esse texto é um texto independente e que a opinião nele exposta não representa a linha editorial deste veículo de comunicação.