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Afinal, existe ou não uma relação entre a Quaresma e as religiões de matriz africana?
A resposta mais simples é: sim, existe.
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Mas que tipo de relação é essa? Não é teológica. É histórica.
A palavra Quaresma vem do latim quadragésima, significando quarenta. O número 40 ocupa lugar central na tradição abraâmica: os 40 dias e 40 noites do dilúvio, os 40 dias de Moisés no Sinai, os 40 dias de peregrinação do profeta Elias até o Monte Horeb, e, posteriormente, os 40 dias de jejum de Jesus no deserto. O Catolicismo consolidou esse número como símbolo de provação, purificação e preparação espiritual.
Mas o que esse período de recolhimento significava dentro de uma sociedade escravista?
Estrutura Religiosa e Escravidão
Durante o período colonial e imperial, instituições ligadas ao Catolicismo estavam integradas à estrutura econômica do Império Português. Ordens como jesuítas, beneditinos e carmelitas possuíam terras, engenhos e contingentes expressivos de pessoas escravizadas.
Pesquisas documentais, como as apresentadas por Victor Monteiro em Escravos da Religião (2021), demonstram que muitos trabalhadores eram registrados como “escravos da religião”, pertencendo institucionalmente às ordens. Isso significava uma forma de propriedade coletiva: serviam à instituição como um todo, e não a um único senhor.
Essa condição dificultava alforrias, ampliava o controle sobre deslocamentos e restringia autonomia social.
Documentação histórica indica que a disciplina aplicada nesses espaços era rigorosa. Castigos físicos e punições estavam inseridos dentro de uma lógica moral e religiosa que associava sofrimento à correção espiritual — uma mentalidade presente na teologia moral da época.
A análise histórica não busca atacar a fé contemporânea, mas compreender como estruturas religiosas participaram do sistema escravista vigente.
Quaresma e Intensificação do Controle
No período quaresmal, práticas consideradas festivas eram desencorajadas: cantar, dançar, tocar instrumentos, adornar-se, celebrar publicamente.
Em uma sociedade onde populações africanas mantinham espiritualidades profundamente ligadas à música, ao tambor, ao canto e à dança ritual, essa restrição tinha impacto direto.
Pesquisas de Joao Jose Reis demonstram que autoridades coloniais frequentemente reprimiam “batuques” e reuniões noturnas, especialmente quando associadas a organização comunitária.
Durante a Quaresma, o clima de vigilância moral podia se intensificar.
Sincretismo e Narrativas de Submissão
Ao longo do tempo, difundiu-se a ideia de que divindades africanas “perdiam força” durante a Quaresma ou que “retornavam à África” nesse período. Essa narrativa foi reforçada por discursos sincréticos que sugeriam supremacia espiritual do calendário cristão.
Entretanto, estudos de Roger Bastide e Reginaldo Prandi apontam que o sincretismo foi, muitas vezes, uma estratégia de adaptação e preservação.
Cobrir ibás, reduzir toques públicos ou reorganizar calendários não significava submissão espiritual — mas prudência estratégica.
Olorogum e o Tempo das Chuvas
Em tradições yorubás preservadas no Brasil, há casas que associam o período quaresmal ao tempo de Olorogum — expressão que pode ser interpretada como um período de enfrentamento ritual.
No oeste africano — especialmente em regiões da Nigéria e do Benim — fim de março e início de abril coincidem com o início das chuvas e o plantio do inhame, alimento associado a Oxaguiã (Oxalá jovem).
O recolhimento, portanto, dialoga também com ciclos agrícolas africanos.
Enquanto discursos coloniais sugeriam fraqueza das divindades africanas durante a Quaresma, tradições internas preservavam outro entendimento: prudência como sabedoria.
Oxaguiã — associado à juventude, à estratégia e à vitória — simboliza exatamente isso: agir com calma para sobreviver.
Prudência como Continuidade
Em épocas de repressão intensa, sobreviver era vencer.
A prudência ensinada pelos mais velhos não representava medo, mas inteligência histórica. Adaptar-se para não desaparecer. Silenciar para continuar existindo.
Hoje, quando já não é necessário esconder tambores para garantir a vida, é fundamental reconhecer que nossos ancestrais sabiam exatamente o que faziam ao preservar seus fundamentos.
Fé e História
Reconhecer que instituições religiosas participaram da estrutura escravista não diminui a fé de ninguém. Pelo contrário: maturidade espiritual exige verdade histórica.
Perguntas permanecem:
Por que a relação entre calendário religioso e controle social raramente é debatida?
Por que o sincretismo ainda é lido como submissão e não como estratégia?
O que mais permanece silenciado na memória oficial?
Revisar o passado não é atacar a fé.
É fortalecer a consciência coletiva.
Fontes Históricas e Bibliográficas
Victor Monteiro – Escravos da Religião (Editora Appris, 2021).
Joao Jose Reis – Rebelião Escrava no Brasil.
Roger Bastide – As Religiões Africanas no Brasil.
Reginaldo Prandi – Mitologia dos Orixás.
Arquivo Nacional (RJ).
Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa).
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia (1707).
Por: Barão do Piraí
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