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Existe uma prática silenciosa que atravessa bairros, comunidades e periferias e que muitos já naturalizaram, como se fosse parte do jogo. Mas não é. É distorção. É manipulação. E, acima de tudo, é um retrato cruel de como a dignidade pode ser negociada quando o sistema falha. Estamos falando de um modelo político em que o vereador, em vez de apresentar soluções estruturais, aparece com saco de cimento, telha, areia, tijolo, paga uma cerveja, resolve uma conta aqui, outra ali e, com isso, constrói algo muito maior do que uma casa: constrói dependência.
E o mais grave? Isso não acontece escondido. Acontece à luz do dia, sustentado pela justificativa mais comum e talvez a mais perigosa de todas: "Político não faz nada mesmo. Então vamos pegar o que dá agora." Essa frase não representa apenas revolta. Representa desistência. É o momento em que o cidadão deixa de exigir direitos e passa a aceitar favores.
Mas existe uma verdade que precisa ser dita, e quase ninguém fala sobre ela: esse sistema não é sustentado apenas por políticos. Ele também é alimentado por uma cultura que cobra esse tipo de comportamento.
Há casos em que o próprio político não pretendia atuar dessa forma, mas acaba cedendo à pressão. Isso porque há pessoas que procuram, pedem e esperam esse tipo de ajuda direta. Medem o político não pelo que ele constrói para toda a comunidade, mas pelo que entrega individualmente. É aí que o jogo se inverte. Em vez de incentivar uma consciência política baseada em direitos, o político se adapta à expectativa de distribuir favores. Em vez de romper com um modelo equivocado, entra nele para não perder espaço. Assim, o ciclo se fortalece dos dois lados.
Mas compreender esse fenômeno não significa justificá-lo. Quando alguém precisa de ajuda para construir sua casa, isso não deveria depender da boa vontade de um político. Da mesma forma, quando alguém aceita esse tipo de ajuda em troca de apoio político, acaba entrando em um ciclo que dificilmente tem fim. E quando o agente político aceita exercer esse papel, mesmo sob pressão, também contribui para manter o problema vivo. Resolver de verdade exige planejamento, políticas públicas e compromisso e, muitas vezes, isso não produz retorno eleitoral imediato.
Assim, o sistema permanece: não resolve os problemas, apenas administra a carência. E aqui está uma das verdades mais difíceis de encarar: não existe política sólida quando o favor vale mais do que o direito. Ajudar pontualmente não é governar. Distribuir materiais não substitui políticas públicas. Ceder à pressão não é o mesmo que exercer liderança.
Ao mesmo tempo, também não se pode ignorar o outro lado. Quem pede, muitas vezes, não pede por maldade. Pede por necessidade. E a necessidade não debate, não planeja, não espera. A necessidade busca sobreviver.
É fácil julgar quem aceita um saco de cimento. Difícil é estar no lugar de quem precisa dele.
Por isso, a responsabilidade não é igual, mas é compartilhada. Quem exerce um cargo público tem uma responsabilidade maior. Mas a sociedade também precisa refletir sobre comportamentos que ajudam a manter esse modelo funcionando.
O mais perigoso de tudo isso não é o saco de cimento. É a normalização. É quando a comunidade passa a enxergar isso como "o jeito que funciona". É quando o errado deixa de causar indignação. E, quando o errado deixa de incomodar, ele corre o risco de se tornar regra.
A política deveria libertar, mas, nesse modelo, ela aprisiona, aprisiona na gratidão forçada, aprisiona na troca silenciosa.
Aprisiona na falsa ideia de ajuda, quando, na verdade, o que se perpetua é a manutenção da necessidade. Enquanto isso, o ciclo continua. De quatro em quatro anos, repetem-se os mesmos discursos, os mesmos personagens e, em muitos lugares, as mesmas práticas apresentadas como solução.
Talvez a pergunta já não seja mais: quem está errado? Talvez a pergunta seja: Quem terá coragem de romper esse ciclo primeiro? Porque, no dia em que o povo deixar de pedir favores e passar a exigir direitos, e os políticos deixarem de oferecer favores para entregar políticas públicas, a política deixará de ser uma relação de dependência e passará a ser um verdadeiro compromisso com a sociedade. É nesse dia que começa a verdadeira mudança.
Por Barão do Piraí
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